O ESTADO DOS OUTROS – PERCEPÇÃO E MUNDO AFRICANO EM CLARICE LISPECTOR

 

Luiz Antonio Mousinho Magalhães – UNICAMP

 

 

Em uma crônica de Clarice Lispector publicada no Jornal do Brasil e em um dos contos da autora incluído em Laços de família, é tematizado o contato de culturas africanas com “nossa cultura”. Pretendo observar como se dá essa tematização do encontro entre culturas e me detenho a princípio na crônica “Corças negras” (Lispector, 1992, p.190). Neste pequeno texto, a autora narra sensações de uma passagem sua por vilas da Libéria. A narradora se vê em meio a pretos que misturam dialetos com palavras do inglês tomadas e pronunciadas “como se fossem mais um dialeto local”.

A postura do narrador é de atenção e abertura às diferenças que cautelosamente se desenham no contato entre visitantes e nativos. E o que é dito e calado – os sons da voz e suas ausências, assinalam esse contato marcado de pequenas descobertas e de certa possibilidade de susto. A narradora percebe o quanto e como as moças pretas liberianas interrompem-se em meio às conversas e ouvem com prazer e atenção a própria voz ao cumprimentarem os visitantes – “dizem com cuidado e prazer: hellô – prestam atenção à ressonância do que disseram, riem e então continuam”.

A fixação da percepção do narrador nos sons da voz, sentidos em suas singularidades e diferenças, os coloca como canal privilegiado de contato com a outra cultura. Há como queuma espécie de fechamento da paisagem que possibilita uma abertura do objeto, com a redução do movimento em redor e possibilidade de focalização da atenção, para falar com Merleau-Ponty (1971, p.80). Conforme o filósofo, “olhar o objeto é mergulhar nele (...)e os objetos formam um sistema onde um não pode se mostrar sem esconder outros”(1971, p.81). Na crônica, o rumor das vozes parece destacado e aumentado no texto, onde tais vozes são sentidas como águas que escorrem, entornam e enchem bilhas, trazem tons em escalas novas, alegria.

 

“sua voz é tão cantante que parece encher de água uma bilha”

“reclama ela entornando a bilha com sua voz de risos”

 “A moça então explode em outra lengalenga que dessa vez enche várias bilhas com chuva cantante”.

 “de repente tantos risos misturados à letra l e tantos espantos alegres como se o silêncio tivesse debandando”

 

Quando o silêncio debanda, as vozes são risos, nessa alegria marcada percebida a cada movimento dos liberianos. Mas – anota o narrador – não “há um traço de escárnio ou vontade de poder e o riso: o riso é uma mistura de fascinação, vontade de agradar, humildade, curiosidade e alegria”, riso cujo uso traz matizes diferentes do que há entre nós, onde se faz freqüentemente elemento de poder e hierarquização. Nos embates de Corças negras, a curiosidade entre os personagens é recíproca e se faz pelo olhar. “Sou extremamente examinado por um negro jovem”. E, noutro trecho:

 

Uma delas me olha atentamente, quase encabulo. E muito de súbito brota em frase longuíssima, arenga sem raiva onde não reconheço um só r ou s, apenas variações na escala do l, vaivém de lengalenga. Recorro ao intérprete. Este resume curtíssimo: ‘She likes you’. A moça então explode em outra lengalenga que dessa vez enche várias bilhas com chuva cantante. O intérprete: meu lenço na cabeça. Tiro-o, mostro como usá-lo. Quando vejo, estou cercada de pretas moças e esgalhadas, seminuas, todas muito sérias e quietas. Nenhuma presta atenção ao que ensino, e vou ficando sem jeito, assim rodeada de corças negras. Nos rostos opacos a listras pintadas me olham. A doçura contagia: também me aquieto, doce. Uma delas então se adianta no seu pé leve, e como se cumprisse um ritual – eles se dão inteiramente à forma – pega nos meus cabelos, alisa-os, experimenta-os, concentrada. Todas assistem (Lispector, 1992-b).

 

Os traços ritualísticos no gestual africano vão ser ressaltados no texto e certo envolvimento encantatório na maneira do narrador perceber os liberianos – sobretudo as pretas corças – vão reafirmar tal envolvimento. Assonâncias, aliterações, esboços de anagramas dão um ritmado viscoso, envolvido. Assim: “As negras jovens pintam o rosto com traços ocre”. Ou: “quando vejo, estou cercada por pretas moças e esgalhadas, seminuas, todas muito sérias e quietas”.

As várias mediações que permeiam nossas relações sociais têm muitas de suas hierarquias quebradas na experiência do outro, como no momento no qual a narradora-personagem, sabendo do gosto do nativo em dar adeus, experimenta um adeus e o rapaz ao qual o gesto se dirige, "com aplicação, numa delicadeza de oferenda, ingênuo e puro, faz gestos obscenos”.

Os liberianos são também notados como sendo “de um preto fosco e unido que parece repelir água, como o cisne, que nunca está molhado”. Na alusão às moças como corças negras, pode-se perceber também a forma não redutora, curiosa e carinhosa – fascinada, com a qual a narradora vê e se relaciona com esse outro representado por elas, notando-lhes cada gesto, cada som da outra língua, percebida em sua alteridade. Vendo a maneira positiva como os bichos estão representados no todo de sua obra, fica mais claro ainda o elogio na figuração dos liberianos em aproximação com os bichos. Em certa passagem do romance A maçã no escuro, por exemplo, o protagonista Martim está no curral e percebe os animais como se estes “já tivessem atravessado a infinita extensão da própria subjetividade a ponto de alcançarem o outro lado”(Lispector, 1982, p.91), essa “plenitude ontológica: identidade sem fissuras” que Benedito Nunes (1989, p.132) assinala ao ler os bichos em Clarice.

O contrário disso são os momentos do conto A menor mulher do mundo, onde a pigméia da tribo dos menores pigmeus é lida e contada pela mídia e pela média da população urbana e pelo cientista que a descreve como sendo por vezes semelhante a um cachorro, a um macaco, a um bicho qualquer. Aí há clara reificação, porém ela parte dos personagens e é desnudada pelo narrador, pelo conjunto de dados da narrativa. Daí a importância de atentar no texto, entre outros traços, para a diferença entre quem vê e quem narra, quem detém a focalização e a instância narrativa, qual a perspectiva e qual voz, para citar as categorias de G.Genette, que marca a distinção entre focalizadores e narradores.

Dessa maneira, em “A menor mulher do mundo” a aproximação narrativa das culturas africanas será feita de maneira diversa. Os próprios limites de gênero demarcam as linhas. O narrador ficcional do conto é heterodiegético, ou seja, observa a história da qual não participa nem participou. E oscila em momentos de aproximação e afastamento desse outro africano. Mais: descrevendo as reações do explorador, que descobre no Congo Central os menores pigmeus do mundo, ele acompanha também a reação, em nossa sociedade (a média burguesia urbana brasileira dos anos 50/60), dos efeitos desse contato com o outro africano através das páginas dos jornais.

O narrador freqüentemente se cola à visão dos personagens, mimetiza seus cacoetes e sua visão fascinada, porém redutora, etnocêntrica – e o faz pelos recursos da estilização, conforme conceitua Mikhail Bakhtin. Avança ainda ao se utilizar dos recursos da paródia, que implode por dentro o discurso parodiado.

O explorador Marcel Pretre, que se empolga ante sua descoberta maior, a menor das menores pigméias do mundo, tem desconstruída no texto sua tara por objetividade, de viés cientificista, positivista. No conto, vai sendo demonstrado dissonantemente o desconforto do personagem nos vários momentos em que se perturba diante da diferença da outra cultura, quando não a consegue classificar. Isso é sugerido em pequenos gestos, por exemplo, na maneira como o explorador recorre às anotações ou conserta o chapéu ao não conseguir reter na malha fina da sua ciência o conhecimento, os modos de vida dos pigmeus. Ou quando se perturba diante do riso da pigméia que, no momento em que recebe pela voz embargada do explorador o nome de Pequena Flor, termina rindo e coçando-se “onde uma pessoa não se coça”. Mais que o gesto inconveniente para a situação, o riso que não se deixa classificar é desestabilizador.

A discriminação sempre exerce por um lado fascínio e por outro rejeição, assinala Suzi Sperber, observando traços de judaísmo na obra clariceana . No contexto de A menor mulher do mundo, num dos lares onde a imagem e as informações jornalísticas sobre Pequena Flor causam atração e desconforto, também vem a despertar desejos. A disposição de um menino em usar a pigméia como brinquedo provoca na sua a mãe a lembrança nauseada da história que ouvira sobre crianças que tinham feito do cadáver de uma outra criança um brinquedo ocasional.

 

Disso a mãe lembrou no banheiro e abaixou as mãos pensas, cheias de grampos. E considerou a cruel necessidade de amar. Considerou a malignidade do nosso desejo de ser feliz. Considerou a necessidade com que queremos brincar. E o número de vezes em que mataremos por amor (Lispector, 1983, p.81).

 

Com ansiedade obstinada, a personagem vai postar-se de frente ao espelho, tentando juntar os cacos de sua imagem-identidade, pela marcação de uma diferença sulcada por hierarquias, onde seu rosto refletido parece querer assinalar um estágio infinitamente avançado de sua cultura, em relação a cara crua de Pequena Flor. Mas a narrativa revela a visão de que, se os passos da civilização configuram um ganho, também trazem uma possível perda. A civilização exige renúncia e o conto parece deixar no ar a dúvida sobre se ao avanço da civilização corresponderiam avanços das porções de felicidade da humanidade.

 

Olhando para o espelho do banheiro, a mãe sorriu intencionalmente fina e polida, colocando, entre aquele seu rosto de linhas abstratas e a cara de Pequena Flor, a distância insuperável dos milênios. Mas, com anos de prática, sabia que este seria um domingo em que teria de disfarçar de si mesma a ansiedade do sonho, e milênios perdidos (Lispector, 1983, p.82).

 

Os milênios ganhos, avançados à frente da cultura dos pigmeus, são milênios perdidos, na dor de vislumbrar aquilo de que se abre mão em troca de tranqüilidade, segurança.

A presença de elementos de estilização e paródia instauramuma tensãonas narrativas de Clarice Lispector, tensão esta que assinala alguns dos principais dados de sua escritura Isso visto que o desfoque entre falas, gestos e posturas de narradores e focalizadores determinam fundamentais atares e desatares destas narrativas.

Em A menor mulher do mundo, boa parte do choque que o conto provoca vem pelo coro absolutamente dissonante do narrador com os personagens. O narrador a princípio parece reforçar de maneira absolutamente violenta e redutora as posições e crenças – etnocêntricas --dos personagens, quando na verdade está desmascarando tais posições, através do engendramento de um segundo plano intencionalmente acentuado, para falar com Bakhtin. E a visão da narrativa está posta neste entrechoque entre narrador e personagens além de em outros elementos colocados nas narrativas. É preciso entender os acentos postos em cada entrechoque destes, pois, como ensina Bakhtin, “não perceber o segundo plano intencionalmente acentuado significa não compreender a obra”(Bakhtin, 1990, 119)

Em A menor mulher do mundo e em grande parte dos textos de Clarice, tem-se uma objetivização da linguagem média que é bastante reveladora. Tal linguagem média era percebida por Bakhtin como a

 

linguagem comumente falada e escrita pela média de um dado ambiente, tomada pelo autor precisamente como a opinião corrente , a atitude verbal para com seres e coisas, normal para um certo meio social, o ponto de vista e o juízo correntes. De uma forma ou de outra, o autor se afasta dessa linguagem comum, põe-se de lado e objetiviza-a, obrigando-a a que suas intenções se refranjam através do meio da opinião pública (sempre superficial e freqüentemente hipócrita) encarnado em sua linguagem (Bakhtin, 1990, p.108).

 

Em Tristes trópicos Claude Lévi-Strauss pensa o lastro de remorso que teria determinado o nascimento da etnografia no Ocidente. Ele também reflete sobre o quanto as outras sociedades, sejam elas melhores ou piores que a nossa (“não o podemos saber”), podem ajudar-nos a nos libertar das nossas, “não porque esta seja absolutamente ou apenas má, mas porque é a única de que temos de nos libertar: libertamo-nos pelo estado dos outros” (Lévi-Strauss, s/d, p.493).

Em um terceiro texto de Clarice Lispector, outra crônica, a escritora descreve em poucas linhas uma viagem à Bolama, também na África (Lispector, 1992, p.381). Mais uma vez o som da voz é notado -- “Falam os negros um português de Portugal engraçadíssimo”. Assinala ainda a narradora que eles não têm a nossa noção de idade: um menino de 8 anos fala ter 53 anos de idade. E os portugueses os tratam a chicote. Ela pergunta se seria necessário tratá-los como se não fossem seres humanos. A resposta: “de outra maneira eles não trabalham”. “Fiquei meditativa. A África misteriosa. Neste mesmo momento em que alguém lê, lá está a África indomável vivendo”. E arremata. “Lamento a África. Gostaria de poder fazer um mínimo que fosse por ela. Mas não tenho nenhum poder. Só o da palavra. Só às vezes”.

A África e seu mistério, outro lugar instaurado, que desloca a percepção rotineira presa a si e lança outras possibilidades perceptivas. Expansão que é posta em linhas e contra-linhas no depoimento pessoal assumido pelo narrador das crônicas ou na força da ficção que desestabiliza as certezas e forja restaurar um ser à flor da pele que o lugar-comum – a cegueira da percepção, o hábito, os laços sociais – haviam mantido represado e são libertados justamente pelo que pode ser aprendido com o outro.

 

 

Referências Bibliográficas:

           

BAKHTIN, Mikhail. Questões de literatura e estética. São Paulo: Hucitec, 1990. p.119.

HELENA, Lúcia. Nem musa, nem medusa. Rio de Janeiro: Niterói, 1997.

LÉVI-STRAUSS, Claude. Tristes trópicos. Trad. Jorge Constante. Lisboa: Portugália Editora; São Paulo, Martins Fontes, s/d.

LISPECTOR, Clarice. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1992.

LISPECTOR, Clarice. Laços de família. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1983.

MERLEAU-PONTY, Maurice. A fenomenologia da percepção. São Paulo: Freitas Bastos, 1971.

NUNES, Benedito. O drama da linguagem – uma leitura de Clarice Lispector. São Paulo: Ática, 1989.

SPERBER, Suzi. "Clarice Lispector. Uma judia no Brasil". In Lusorama Zeitschrift für Lusitanistik nº 16 Outubro 1991. Anno VII. Frankfurt am Main: Johann Wolfgang Goethe Universität - Institut für Romanische Sprachen und Literaturen - pp. 96-109.